O violão da Fortuna!

O Trecheiro rende sua homenagem a Fortunata, falecida no dia 18 de janeiro em Recife, aos 93 anos. Ela escolheu por companhia de toda uma vida, o povo da rua. Com seu violão a tiracolo percorria as ruas e marquises, conhecendo, convivendo e encantando os catadores de papel e os grupos em situação de rua. Onde ela ia, lá estava o violão da Fortuna! Afi nal, quem é Fortunata? 

Maria Cristina Bove, uruguaia, da Fraternidade das Oblatas de S. Bento, grupo ao qual pertencia Fortunata, recorda que o carinho dos que a rodeavam, fez dela uma mulher de muitos nomes: “Nenê, Fortuna, Titi, Fo, Tuninha e assim por diante”. 

Cristina descreve um pouco de sua trajetória: “Ela nasceu em Floresta no dia 5 de outubro de 1928, às margens do rio Pajeú, no sertão pernambucano.  O rio, o sertão marcaram sua vida e eram recordações sempre presentes. Ela nos contava das belas noites do sertão regadas pela música e o canto. Eram vivências que deixaram na sua vida marcas da resistência, da tenacidade, da ternura e da determinação”. 

Fortunata era pedagoga de vida e conhecedora dos encantos da música. Benedito Luís Marcelino recorda que quando trabalhou na OAF, ela lhe doou um violão quebrado que havia sido deixado de lado na cadeia feminina. Bendito foi a uma loja de conserto e voltou com o violão totalmente novo. O passo seguinte foi Fortunata lhe oferecer a possibilidade de ter aulas de violão com uma professora belga, voluntária de violão clássico. Ele não pensou duas vezes! O gesto de Fortunata reforçava o caminho de restauração da vida de Benedito, assim como o fez com tantas outras pessoas. Será sempre a música o fio condutor da vida e missão de Fortunata. “Ela nos alegrava sempre com a música, particularmente a nordestina”, confirma Anderson Lopes, fundador e coordenador do Movimento Nacional de Lutas em Defesa da População em Situação de Rua, que conviveu com ela por muitos anos. 

“Quinta filha entre dez irmãos, desenvolveu muitas habilidades sertanejas de tarefas caseiras comuns na região. Em 1965, morando já em Recife, com a sua família, aproximou-se da OAF “Organização de Auxilio Fraterno” e foi bordar na ilha do Recife entre as mulheres que viviam em situação de prostituição. 

Fortunata viveu por quase 20 anos em S. Paulo. A oficina S. Bento, no Pacaembu e a escadaria da catedral da Sé eram seus locais preferidos. 

Na oficina ela acolhia o povo que chegava em busca de trabalho e descanso. Na escadaria da Sé cantava noite adentro rodeada pelo povo que, animado, buscava e trazia longas histórias de amor e da vida. Seu lema: Viver com alegria! Achava que assim dava para amolecer muitos corações”, conclui Cristina. 

Fortunata morou por outros 15 anos em Belo Horizonte, quando a pastoral da rua dava seus primeiros passos. Nos últimos anos ela foi acompanhar seus irmãos que precisavam dela em Recife. Depois foi a vez dela ser cuidada. 

Um dos sobrinhos, Hugo Ferraz Gominho destaca a doação e o compromisso de Fortunata com os mais necessitados. Para ele, “o exemplo de amor a Deus e ao próximo, vivido por Fortunata é um legado a todas as pessoas que abraçam as causas populares”. 

Luís Henrique da Silva, catador e coordenador do Movimento Nacional dos Catadores, conheceu Fortunata em uma das marquises da rua Goiás, em Belo Horizonte, onde fazia reciclagem. “Nós morávamos no lixo, éramos tratados como lixo e vivíamos do lixo. Era muito sofrimento. Além de espalhar alegria, Fortunata nos conscientizava sobre a necessidade de nos organizarmos. Olho para trás e posso ver como éramos antes do contacto com a Fortunata e como estamos agora”, constata Luís. 

Ricardo Vieira Souto, catador que a conheceu nas marquises da Av. Afonso Pena destaca a sua proximidade: “Hoje a gente não tem muita visibilidade, mas naquela época a gente tinha muito menos. Eram poucos que como ela olhavam pra gente que estava nas ruas”. Amélia Hideko relembra com saudades as tardes de domingo na Casa de Oração, na rua Riachuelo, e as missões que aconteciam anualmente no centro de S. Paulo. Para ela “Fortunata sempre foi uma força na vida das pessoas que já haviam perdido muito na vida. Encontravam nela um porto seguro, onde viam que podiam recomeçar…”. Marislene, uma outra amiga, acrescenta um detalhe da convivência: “tinha uma braveza repleta de amor. A gente sabia que tinha ali alguém que queria ensinar, que queria estar perto”. 

“Fortunata tinha um temperamento marcante, mas ao mesmo tempo era capaz de cativar com uma ternura irresistível. Para ela a vida só era possível se tivesse alegria”, confi rma Regina Maria Manuel, do grupo das Oblatas e da equipe de coordenação da Pastoral Nacional do Povo da Rua, organismo da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 

Luis Kohara, do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, foi fi sgado por Fortunata em 1975, aos 21 anos, quando quis se aproximar da realidade da rua. “Ela tinha o sentido mais profundo da misericórdia”, era como se dissesse “eu quero dar o coração ao próximo”, recorda Luís. 

Maurício Alves Pereira, conhecido como Tio Mauricio, conviveu com ela no mesmo território. “Eu sabia por onde ela passava através do povo da rua. Estando nas ruas de Belo Horizonte pela Pastoral do Menor, sabia que ela tinha passado por ali. Ela deixou pegadas em todos os corações por onde ela passou”, relata. 

Fortunata por ela mesma 

Fortunata Novaes Gominho nasceu em Floresta no dia 5 de outubro de 1928, às margens do rio Pajeú, PE. 

Cortiço e trabalho na fábrica 

“Cheguei em S. Paulo em 1968. Em primeiro lugar fomos procurar moradia. Foi para mim uma tensão e susto o lugar que arranjamos. A vivência no cortiço, coisa que eu não conhecia, ver de perto o que era, foi pra valer! Morar num quarto, cozinha que era mínima, um banheiro para tantas famílias, não dava para entender. Mas, fomos. Havia nesse local mais de vinte famílias. 

Eu desejava trabalhar em hospital. E, por mais indicações que tivesse, quando chegava não dava certo. Era a minha idade, pois já tinha mais de 35 anos. Então passei a procurar em fábricas. Já estava desanimada, quando consegui um trabalho numa tecelagem. Tinha vaga na seção de limpeza de peças de tecidos. E aí fiquei um ano e três meses. Foi uma experiência muito dura. 

Minha chefe chegava na bancada de trabalho e dizia que eu tinha de trabalhar mais rápido, que ela queria era produção. Xingava a gente! As operárias compensavam a seu modo as injustiças. Elas não tinham consciência de classe operária, não questionavam a exploração, ao menos na nossa pequena seção, que pertencia a última categoria dentro da fábrica”. 

Nas escadarias da Catedral da Sé “Em outras ocasiões, sento-me com o violão, nas escadarias da catedral. O pessoal da rua vai chegando e se sentando junto. Todos gostam de cantar e sempre há voluntários para o violão. Cantos antigos cheios de saudade, cantos mais novos despertando para a luta pela vida. Até rodas de dança se vão formando. Basta pouco para o povo deixar de andar disperso, reunir-se e fazer a festa. Vivemos bons momentos nas noites da Praça da Sé! Um ponto referencial para a cidade, e também para o renascer do povo da rua. 

Nunca me esqueço daquele moço com o coração cheio de vingança, querendo descobrir quem tinha feito um mal a sua família para ‘descontar’ o fato. Mudou de ideia ao ouvir o canto. Estancou-se aquela revolta que trazia no coração. Ficou ali, cantando conosco. O mal na rua, é o desânimo de viver, é o desejo de vingança de sangue, é desacreditar dos irmãos de sofrimento de luta”. 

Do livro: Quantas Vidas Eu Tivesse, Tantas Vidas Eu Daria! G. Castelvechi (Nenuca), 1985, Ed. Paulinas 

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