Frio e omissão do Estado matam em São Paulo

 “Não dá pra ficar em albergue porque tem uns bichinhos da roupa que fica picando a gente, vai puxando o nosso sangue. É muquirana, percevejo, por isso que eu não fico em albergue”

Karla Maria

A capital paulista registrou a madrugada mais fria do ano no sábado, 24, com os termômetros registrando em média 8 °C. A baixa temperatura levou duas pessoas à morte nos dias 22 e 23 de agosto. Um homem de 39 anos foi encontrado na Rua 25 de Março e uma mulher, ainda não identificada, na Praça da Sé, ambos na região central. A Polícia Civil ainda investiga a causa, mas hipotermia é a hipótese apontada.

O Vicariato do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo denunciou cinco mortes nas últimas semanas. Em Guarulhos, na região metropolitana, foram registrados dois casos de hipotermia em que o Samu foi acionado. A hipotermia acontece quando há queda da temperatura do corpo e com ela há perda da habilidade do corpo produzir energia suficiente para manter a temperatura interna. Há dificuldades de coordenação, reações lentas, calafrios, insônia, confusão mental, falência do coração e morte.

Para combater a hipotermia e evitar vítimas fatais, os médicos orientam agasalhar-se bem, principalmente mãos e pés, mas como fazê-lo vivendo pelas calçadas das cidades? Camila Gomes Costa da Silva, de 31 anos, conta. “Eu vim atrás de barraca para me proteger do frio e da violência também”, contou a jovem em uma gelada noite, dia 17, carregando todos os seus pertences em um carrinho de supermercado.

Ao montar sua barraca no marco zero de São Paulo, ela forrou o chão frio com papelão e depois com um cobertor, que também ganhou do Movimento Estadual da População em Situação de Rua. “Coloca jornal aí que esquenta mais”, gritou um “vizinho” que também estava montando sua barraca.

Assim como Camila, Daniel Alexandre Santana, 33 anos, enfrenta o frio como pode. “Durmo em qualquer lugar que tiver coberta, até a polícia levar”, diz, mostrando a barraca desmontada na mochila que carregava nas costas. “Eu já tenho uma barraca, mas a varetinha (de sustentação) está quebrada, não sei como vou enfrentar o frio”, lamenta. Natural de Bebedouro, cidade a 380 km da capital, Santana, sua mãe e irmãs vivem nas ruas. Elas na Lapa, região noroeste, e ele na calçada em frente a um banco, vizinho da Catedral da Sé, bem no centro da cidade.

 “Não dá pra ficar em albergue porque tem uns bichinhos da roupa que fica picando a gente, vai puxando o nosso sangue. É muquirana, percevejo, por isso que eu não fico em albergue”, contou em uma fria terça-feira, 18 de agosto. Alguns dia depois, no dia 25, a secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Berenice Maria Giannella, publicou em uma rede social que a cidade de São Paulo tem vagas sobrando para o acolhimento de pessoas em situação de rua.

A entrevista com Santana pode, em parte, explicar a “sobra” de vagas a que se refere a secretária. Em nota, a Prefeitura de São Paulo lamentou as mortes e informou que, na madrugada do dia 22, 150 pessoas foram acolhidas, 82 recusaram acolhimento e 182 cobertores foram distribuídos. Já em Guarulhos, entre os dias 20 e 23, a gestão municipal encaminhou 108 pessoas para pernoite.

Últimos posts por Karla Maria (exibir todos)