Casa, higiene e alimentação? O desafio do Isolamento nas ruas

Na busca por isolamento social, as pessoas em situação de rua fazem camping nas ruas de São Paulo e precisam de apoio.

Sobreviver nas ruas, é um desafio em todas as épocas. Vimos denunciando isso ano após ano, mais nunca imaginamos chegar em uma crise epidêmica. E gora, a regra é, fique em casa! Que casa? Cuide de sua higiene pessoal, lave bem as mãos! Onde lavar as mãos e tomar banho? Se alimente bem, fique forte. Que alimento?

É isso que a população de rua se pergunta a cada hora que se avança essa crise. Muitos buscam os albergues, que nos seus limites tentam se organizar. Digo limites, porque organizar uma casa com centenas de pessoas é um desafio por si só. Com possibilidades de contágio o desafio é infinito.

O popularmente chamado coronavírus, batizado de Covid 19, vem adoecendo e matando milhares de pessoas pelo mundo. Foi decretado no estado de São Paulo, regime de quarentena, que é a recomendação pelo isolamento social da população para evitar a disseminação do vírus. Esta medida preventiva é necessária, no entanto afeta diretamente a população em situação de rua.

O município tem apresentado algumas respostas para o enfrentamento desta situação, porém as medidas ainda são insuficientes diante da demanda. Oficialmente o município assume a presença de 24.344 mil pessoas em situação de rua, sendo que 11.693 encontram-se acolhidos e 12.651 sem opção alguma de acolhimento.

A partir da observação, escuta qualificada e diálogo com as pessoas que estão nessa situação, práticas adotadas pela Associação Rede Rua, identificamos a importância de oferta de barracas de proteção individual. A proteção individual, o cuidado com a higiene e a alimentação são as maiores necessidades emergenciais, para uma maior garantia de sobrevivência daqueles que estão em situação de rua e tentam se proteger diante desse cenário de instabilidade e insegurança.

Conversamos com Luciano, pessoa em situação de rua que convive conosco no espaço de convivência da Chapelaria Social.  Ele recebeu uma barraca de camping de doação, segundo ele isso tem ajudado muito, pois se sente mais seguro em relação ao contato. “A doação me ajudou a me proteger de doenças como a pneumonia e tuberculose. Como a barraca é leve, posso carregar pra onde eu quiser. Também me ajudou no caso dessa corona vírus, fico no máximo do possível dentro dela e só saio pra tentar me alimentar”.

Luciano defende a multiplicação de entrega de barracas e diz que não quer dinheiro. “Estou precisando de roupa e uma mochila, dinheiro eu não quero, porque com isso eu posso ir atrás de serviço.”

Neste sentido, a Associação Rede Rua e várias organizações elaboraram um ofício solicitando à prefeitura que sejam instalados espaços com estrutura de banhos, higiene, alimentação e saúde, onde poderiam ser instaladas essas barracas doadas. A Rede Rua já conseguiu mais de 200 barracas para serem doadas para as pessoas em situação de rua.

As organizações sociais continuarão colaborando e pressionando o poder público. É importante continuar a ação de colaboração, e criação de alternativas de proteção individual e isolamento social da população sem teto. A criação de espaços coletivos para organização de campings por exemplo, poderiam também ser uma saída emergencial.

Foto: Luciney Martins.