Até que a dignidade vire costume!

Francisco Javier Román*

Tradução: Juan Tapia

O Chile tem uma população de 18 milhões de habitantes, com uma renda per capita de 14.900 dólares por habitante. Porém, o nível de pobreza é de 10,9% (1.962.000 pessoas), e a extrema pobreza chega a quase 4% (720.000 pessoas).

A respeito da COVID-19, a quantidade total de contágios chega a 1.026.785 pessoas, das quais 23.644 já faleceram, com 7.500 casos diários de contaminados na atualidade. Apesar disso, já foram imunizadas quase 7 milhões de pessoas com a primeira dose e 3.850.000 com as duas.

Em termos econômicos, o Chile passa por uma situação crítica com um aumento muito significativo do desemprego. Oficialmente alcança 12% e o trabalho informal ultrapassa 40%. Diante desse quadro, o Estado implementou uma série de planos, ajudas econômicas e subsídios, os quais são insuficientes, discriminatórios e difíceis de se conseguir.

Atualmente está sendo desenvolvido um processo constituinte, iniciado com as demandas populares de outubro de 2019, o levantamento popular que deixou 34 mortos, 460 pessoas com traumas oculares por causa da Polícia e do Exército. Esses fatos foram denunciados aos organismos internacionais como a Anistia Internacional, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH).

Nesse Chile convulsionado, complexo, paradoxal e com medo, sobrevivem as pessoas em situação de rua. Oficialmente se reconhecem 17.000 pessoas nessa condição, mas antes do levantamento popular, as ONGs falavam de mais de 20.000 pessoas.

De um lado, a pandemia gerou uma crise econômica e social que jogou na rua milhares de pessoas vulneráveis que viviam entre a pobreza e a extrema pobreza: menos empregos, precarização da vida, aumento no valor dos aluguéis.

Do outro lado, temos o fenômeno da imigração. No censo de 2017 só havia 750.000 migrantes, quantidade que se duplicou em 4 anos chegando a 1,5 milhão. Isso faz com que não exista uma estrutura administrativa, econômica, política e social adequada para acompanhar esses processos (uma das heranças da ditadura militar). Somado a isso estão a xenofobia, racismo e aporofobia (preconceito da elite e meios de Comunicação), com uma burocracia interminável, exploração trabalhista, maus-tratos e preconceitos (62% dos chilenos rejeitam a migração).

Com essas duas dimensões é possível dizer que a quantidade de pessoas em situação de rua ultrapassa o número de 25.000. Muitas vezes sendo grupos familiares completos, que devem enfrentar a pandemia sem os cuidados mínimos: acesso a máscaras, lavagem de mãos, controle de temperatura e evitar os deslocamentos. Contudo, o índice de contágios é baixo nessa população. O que está aumentado é a fome, tanto na rua, como nas camadas mais empobrecidas (já não têm mais albergues, refeitórios populares, devido ao toque de recolher, restrição do deslocamento, normas rígidas de isolamento social etc.).

As pessoas em situação de rua sobrevivem, lamentavelmente, desde a caridade e dos empregos precários e temporais, impedidos de pandemia. Além disso, com um Estado ausente, deficiente, indolente e burocrático não se consegue atingir a um grande número dessa população. De fato, só existem 4.000 leitos ou benefícios para uma população de mais de 25.000 pessoas. Os subsídios, os auxílios emergenciais, as bolsas não chegam à rua por não terem informação ou documentação.

Nesse contexto nascem outras expressões que avivam as esperanças. Centenas de “panelas comuns”, quer dizer, grupos de voluntários que se organizam para entrega de marmitas, sempre desde as ONGs, com poucas ajudas do Estado. Isso somado a centenas de pessoas particulares e famílias que fazem suas doações diretamente ou através das organizações sociais, e algumas contribuições do mundo empresarial.

No Chile, tem sido implementado um programa de vacinação massiva nacional que também considera as pessoas em situação de rua: pequena luz de esperança. E também o pessoal da área da saúde que é a chave fundamental nesse atendimento às pessoas em situação de rua para enfrentar essa pandemia.

Esperamos que o mundo seja diferente, quando ela acabar, onde todos e todas tenhamos dignidade, direitos, oportunidades, especialmente aqueles que são mais esquecidos e vulneráveis em seus direitos. Para aqueles que, por não terem possibilidades, redes de proteção, por serem deficientes ou terem doenças e traumas, por serem crianças e adolescentes sem proteção familiar e social, por serem migrantes pobres e idosos precarizados; para todos e todas os que são colocados para viver e morrer na rua, esperamos que a pós-pandemia seja uma oportunidade para que a dignidade vire costume!

Finalmente, uma grande homenagem a Gabriel Gutiérrez Ramírez, “Fray Nero”, sacerdote colombiano, conhecido como o anjo da guarda da população da rua, que dedicou grande parte da sua vida a eles e que faleceu pela COVID-19, no dia 2 de abril de 2021. 

¡¡¡¡Que la Calle No Calle!!!! – Que a Rua Não se Cale!!!!

* Director Ejecutivo

Fundación Gente de la Calle

Artigo completo e em espanhol no blog da Rede Rua

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