“Arranquem as pedras do caminho do meu povo”

Tomamos a iniciativa de fazer um esforço, em nossas reuniões, de começar nossas falas por algo positivo. Neste sentido, é bom lembrar que a vacinação começou. Já podemos até sonhar ou planejar quando, aproximadamente, vamos poder tomar a primeira dose da tão esperada vacina. No dia 12 de fevereiro também começou a vacinação das pessoas em situação de rua com 60 ou mais anos na cidade de São Paulo.  

Feita essa ressalva, a cada editorial estamos percebendo que as portas de saídas para uma vida digna estão sempre mais difíceis. Em nenhum momento chegou-se a imaginar esse cenário de morte. Estamos falando de mais de 250 mil mortes de COVID 19 no Brasil, até o momento, com previsões de rapidamente chegarmos a 350 mil mortes por conta das modificações do vírus, da possibilidade de chegar uma terceira onda e da falta de investimentos na saúde. 

As previsões não são nada animadoras, apesar da vacinação já ter começado. Infelizmente, o governo ainda continua patrocinando políticas de mortes. A última dessas políticas foi a mudança dos decretos com o objetivo de desburocratizar e ampliar o acesso a armas e munições. Algo irracional e com objetivo de satisfazer seus apoiadores e patrocinar a matança dos pobres – decreto Nº 10.628, de 12 de fevereiro de 2021. Por que e para quê um juiz ou membro do Ministério Público vai querer ter acesso a 6 armas de fogo, se uma arma já é um grande perigo? 

 É hora de investir em saúde, em prevenção, comprar vacinas, apoiar financeiramente às pessoas e famílias em situação de extrema pobreza e não deixar o país mergulhar numa crise financeira que vai aumentar a distância entre ricos e dos pobres. É o momento de centrar o esforço em não perdermos mais vidas, seja pela COVID 19, pela fome, pela violência e outras doenças.  

Bom, mas tudo isto já vem sendo falado, escrito, gritado nas ruas deste país. Não tem adiantado muito! Só resta estabelecer e organizar as bases, fortalecer as articulações, aumentar os laços de compromisso, deixar tudo aquilo que se divide e avançar em direção a uma nova organização política. Sempre lembrar que os mais pobres, incluindo as pessoas em situação de rua, seja menor, mulher, idoso, em situação de calçada, todos e todas devem fazer parte dessa grande articulação.  

“Arranquem as pedras do caminho do meu povo”, já se falava nos anos 90. Agora foi preciso uma marreta, um homem e um gesto profético para trazer a realidade dura e de morte de pessoas que estão sendo penalizadas por essas políticas de morte, ou melhor, por falta de políticas que tragam esperança e vida.  

Aproveitamos a ocasião para manifestar nossa gratidão à ADVENIAT, da Alemanha, que em 2020, ajudou-nos a divulgar com mais eficácia o que ocorre no mundo da rua em tempos de pandemia. Também agradecemos à Claudia Pereira e Karla Maria pelos serviços prestados ao longo do ano.  

O Trecheiro inicia 2021 com mudanças na equipe e volta a ser publicado mensalmente contando com o apoio de voluntários.  

Que possamos sempre mais possibilitar voz, vez e espaço para a imensa criatividade das pessoas em situação de rua! 

Últimos posts por Redação (exibir todos)