A Fome, a Reforma Agrária e as pessoas em situação de Rua

Para a pessoa que está em situação de rua, acordar é a largada inicial da corrida para descobrir quando, onde e se de fato poderá fazer uma refeição, assim é todos os dias, na maior e mais rica cidade da América latina: São Paulo. Quem o vê, pensa logo o quão solitária é essa vida, mas não é assim. O Censo de 2019, apontava a existência de 24.344 pessoas em situação de rua, dessas, 12.451 não são atendidas pelos centros de acolhida, os albergues. Já em 2020, essa população foi certamente a mais exposta à pandemia do novo corona vírus, mas antes do vírus, chegou à fome. Buscar a sua primeira, e talvez única refeição diária, em um dia qualquer desse ano da pandemia, seria mais garantido com o auxílio emergencial. Dados do Ministério da Cidadania mostram que 126 milhões de brasileiros precisaram direta ou indiretamente do benefício, sendo que, segundo pesquisa Datafolha, 36% desses, tiveram o auxílio como única fonte de renda. Ainda assim, não houve garantia à segurança alimentar da maioria, já que os preços dos itens da cesta básica tiveram aumentos exponenciais. Segundo o IBGE, em São Paulo esse aumento foi de 25,82%, o que fez o Dieese calcular A Fome, a Reforma Agrária e as pessoas em situação de Rua em mais de 5 mil reais o valor real do salário mínimo. Esse é o resultado da concentração de terras no Brasil entre o latifúndio improdutivo e o agronegócio que se centra na produção de commodities (mercadorias/matéria prima) para exportação em detrimento de alimento em quantidade e diversidade para o mercado interno. Sem uma política de estoques e de incentivos à agricultura familiar, o preço dos produtos é regulado pelo mercado internacional, em um cenário de alta do dólar. Nos primeiros meses do ano, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) apresentou o Plano Emergencial de Reforma Agrária Popular, que propunha a arrecadação imediata de terras para a Reforma Agrária nos termos da constituição federal, não só para os camponeses sem terra mas também para todos os desempregados dos grandes centros urbanos. Hoje cerca de 730 grandes empresas concentram 6 milhões de hectares de terras ao mesmo tempo que concentram cerca de 200 bilhões de reais em dívidas com união, bastaria, portanto, trocar essa dívida pelas terras. A Reforma Agrária, além de propiciar trabalho e moradia para milhares de pessoas desalentadas no campo e na cidade, ao redistribuir os milhões de hectares de terras improdutivas ou onde ocorrem atividades criminosas como a sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, trabalho em condição análoga à escravidão, devastação ambiental entre outros, aumenta a produtividade da terra e o abastecimento das cidades, o que reduziria os preços dos alimentos. Com ou sem auxílio, uma marmita doada por uma das várias iniciativas promovidas pela sociedade civil, com ou sem apoio governamental, é a opção mais segura de refeição para essa pessoa. Um emprego fixo poderia mudar essa situação, mas finalmente conseguida a refeição do dia, é preciso escolher entre procurar um emprego ou tentar conseguir uma vaga num albergue para passar a noite. Emprego não há; dados do IBGE de outubro de 2020 apontam um recorde histórico de 14 milhões de desempregados. Ter uma moradia é outra coisa que passa longe do radar, diante da política habitacional promovida na cidade de São Paulo, tão irrisória quanto o auxílio emergencial. O ano de 2021 se inicia com incertezas em relação à vacina contra o coronavírus e o auxílio emergencial, demonstrando que os governos atuais, pouco se importam com a vida das pessoas. Para mudar essa realidade, a única certeza que se tem de evitar que esse ciclo se reinicie no dia seguinte, é fazer uma luta feroz por Terra, Teto e Trabalho para todos. 

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